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Chef do Sertão participa de festival em Tiradentes

Timóteo Domingos, de apenas 17 anos, elabora receitas com o objetivo de acabar com a fome no nordeste brasileiro


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Timóteo Domingos é o Chef do Sertão
Redação Sou BH
23/08/14 às 17:50
Atualizado em 01/02 às 17:58

Há quem diga que cozinha não é lugar de criança, mas o que dizer do concurso “MasterChef Junior”? Aquele em que crianças, entre oito e 13 anos, esbanjam técnica no preparo de pratos requintados. A competição ainda não tem uma versão brasileira, mas talentos aqui não faltam. O culinarista Timóteo Domingos, convidado do Festival Cultura e Gastronomia Tiradentes, é um ótimo exemplo.

Natural de Santana do Ipanema, em Alagoas, ele tem apenas 17 anos e se destaca pelas receitas originais, baseadas em frutos de sua região, o nordeste do Brasil. No festival, ele ministra a palestra “Comendo Cacto”, sábado (23), às 16h30, na Pousada Escola Senac. Sua curiosidade pelo universo das panelas e condimentos vem desde os sete anos, quando observava a avó cozinhar e aprendeu a fazer os pratos tradicionais.

Despretensiosamente, ele conta: “com o passar do tempo, passei a mudar ingredientes de algumas receitas e criar as minhas próprias, reaproveitando ingredientes como cascas, folhas, sementes e raízes não utilizadas até então. Usando também ingredientes como cactos, catingueira, macambira”. Aos oito anos, já assinava criações como o doce de umbu e o brigadeiro de cascas de melancia.

Autodidata, somente agora, ele tem seu primeiro contato com uma formação formal. “Morava no interior, sempre tive vontade de fazer cursos, mas nunca tive oportunidade. Nesse semestre, consegui uma bolsa na Faculdade de Tecnologia de Alagoas-FAT, e curso Gastronomia”. A falta de oportunidades não impediu seu empenho e, muito, menos, seus sonhos. “Sou um jovem muito sonhador. Amo a gastronomia, pretendo me formar na área e me especializar no bioma da caatinga”.

O próximo passo será a criação da “Gastrô Tinga” ou gastronomia da caatinga, receitas com ingredientes típicos dessa região. Baseando-se nelas, Timóteo Domingos pretende, ainda, desenvolver projetos para diminuir a fome no sertão. E, não para por aí, um de seus maiores sonhos é “ter um programa de culinária na TV, onde eu possa mostrar a cultura gastronômica de uma forma nunca vista antes”. Entre seus chefs preferidos, por exemplo, está Edu Guedes, apresentador do programa “Hoje em Dia” (Rede Record). “Assisto ao programa, desde a estreia, acho fascinante a forma com que ele desenvolve seus projetos. Espero ter a oportunidade de conhecê-lo e mostrar um pouco do meu trabalho”.

"Quero diminuir a fome do povo do sertão"

Insatisfeito com o preconceito em relação a um ingrediente “riquíssimo em nutrientes”, Timóteo dá sua receita para acabar com a fome do brasileiro. “O Brasil é um dos maiores produtores de cactos do mundo. No entanto, são usados para quase nada. Há um preconceito muito grande com esses ingredientes. No meu ponto de vista, a melhor forma para diminuir a fome”. Segundo ele, em algumas regiões, são encontrados cactos ricos em elementos essenciais à alimentação humana. “Uma fonte natural de 18 aminoácidos, oito dos quais devem ser ingeridos regularmente como alimento, além de vitaminas diversas”.

O culinarista ressalta a presença das vitaminas A, B, C e E. “A vitamina E previne coágulos sanguíneos e a formação de placas de gorduras nas paredes das artérias e ajuda a neutralizar os danos nervosos associados com a diabetes adulta. O ácido fólico reduz o risco de acidente vascular cerebral e, juntamente com a B12 ajudam a prevenir as células de se tornarem malignas”. Destaca também a presença de ômega 6 e 9 e pergunta: “se nós temos ingredientes com esse potencial nutritivo, por que não explorá-los”.

Livro

Timóteo Domingos pretende registrar suas tão originais receitas em uma série de livros, que ele define como saga. “Lançarei quatro livros, contando um pouco da minha história desde quando comecei a me aventurar na cozinha, aos sete anos. O primeiro, ‘O Chef do Sertão’, está quase pronto”. Ele ainda não fechou com nenhuma editora, mas pretende lançar o livro em janeiro de 2015.

Em meio a tantas delícias, está a “Cocactus”, criada para arrecadar o dinheiro que seria usado para testar suas receitas. “Aos dez anos, tinha diversas receitas, no entanto, não tinha dinheiro para testá-las. Foi quando comecei a vender cocadas, bolos e tortas na escola”. E, claro, não era uma cocada comum, o próprio nome denuncia. “Muitas vezes não tinha coco suficiente para fazer as cocadas, daí colocava o cacto ralado para completar. As pessoas não percebiam e perguntavam qual o segredo para deixar a cocada mais cremosa. Eu nuca falei que tinha cactos”. Hoje ela é conhecida como “Cocactus”, onde o coco foi totalmente substituído pelo cacto.

Festival Cultura e Gastronomia Tiradentes


Aos poucos, o trabalho de Timóteo vem sendo reconhecido e ele figura em matérias de jornal, revistas, sites e TV. Em uma dessas oportunidades, surgiu o convite para participar do Festival Cultura e Gastronomia Tiradentes. “Durante a Expedição Fartura Gastronomia, enquanto passavam pelo estado de Sergipe, um dos destinos da equipe era Canindé para fazer a matéria comigo. Na mesma ocasião, fui convidado para ministrar a aula. Será a grande oportunidade de conhecer de perto a tão famosa Gastronomia Mineira, que considero perfeita”.

Para esta edição, o Festival Tiradentes instituiu uma equipe para pesquisar e levar a cultura gastronômica nacional às pessoas. O conteúdo da pesquisa será apresentado em 60 cursos de gastronomia, 74 atrações culturais, 12 jantares (festins) com chefs de renome nacional e internacional, restaurantes na praça, lançamentos de livros, exposições e exibições de vídeos. Timóteo Domingos é um dos escolhidos e participa pela primeira vez de um festival, “não só participar é também a primeira vez que irei ministrar uma aula. Estou muito ansioso, expectativa a mil”.

A história dos cactos, suas principais características e a diversidade encontrada em toda a América, será o tema de sua apresentação. “O foco será o cacto brasileiro, principalmente os existentes no bioma da caatinga. Mostrando como utilizá-los na gastronomia, ensinando as técnicas de colheita. Destacarei a diversidade de nutrientes, o sabor, a textura, o aroma e a beleza que eles proporcionam aos pratos”. Ensinará também o preparo do “bife” de cactos e da cocactus, além de expor uma variedade de receitas, como a mousse de palma e o doce de xique-xique. “Levarei espécies de cactos, assim como seus frutos, para demonstração. Algumas plantarei na horta comunitária”, finaliza.

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