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Sob Olhos Sensíveis e Amorosos – Odair José

O músico, que chega a capital mineira neste sábado (3), abriu se coração e falou sobre vida e carreira


Créditos da imagem: Vinicius Denadai
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Júnior Castro
02/08 às 17:00
Atualizado em 02/08 às 17:37

“Sabe o que eu quero de verdade? Jamais perder a sensibilidade, mesmo que às vezes ela arranhe um pouco a alma. Porque sem ela não poderia sentir a mim mesma...”. Como na delicadeza das palavras de Clarice Lispector, o Sou BH teve o prazer de navegar ao lado do cantor, compositor e cronista da vida, Odair José, e conhecer um pouco mais de sua história. O músico chega a Belo Horizonte neste sábado para lançamento de seu mais novo trabalho: Hibernar na Casa das Moças Ouvindo Rádio.

Odair José é um daqueles músicos excepcionais que, muito além do talento, traz enorme carga de emoção e, acima de tudo, verdade em suas letras e composições. Nascido em Morrinho, no estado de Goiás, ele ganhou seu primeiro instrumento musical ainda criança, quando já se sentia acolhido pelo poder transformador da arte. “Quando eu tinha sete anos pedi um violão para meu pai, queria aprender a tocar e já gostava muito de música. Nessa época, ele me deu um cavaquinho, por causa do meu tamanho”, lembra sobre a infância.

Anos mais tarde, já na adolescência e em Goiânia, Odair fez parte de diversas bandas. Nesse período, como lembra o próprio, o rádio era seu melhor amigo e onde ele descobriu seus maiores ídolos. “Sempre gostei de rádio e, nessa época, a gente podia ouvir tudo. Eu descobri todos os estilos musicais, escutava rock, MPB, internacionais. Acredito, inclusive, que até hoje o rádio é o veículo mais importante e que faz parte da vida das pessoas de um jeito muito íntimo”, explica.

Curioso e sonhador, o compositor almejava uma carreira de sucesso e não teve medo de correr atrás de seus sonhos. “Eu sempre via nos discos que a maior parte das gravadoras estavam no Rio de Janeiro. Quando completei 18 anos, deitei em casa e amanheci na capital carioca. Saí meio ‘fugido’. Não podia contar para os meus pais, então, juntei um dinheiro que achava suficiente, falei para uma de minhas irmãs e fui embora no meio da noite”, relembra.

Já no Rio, Odair percebeu que a vida não seria tão fácil quanto imaginava. Depois de percorrer as gravadoras do centro da cidade e buscar oportunidades, sem grande êxito, seu dinheiro acabou e, até o violão que tinha, foi roubado em uma das noites em que o cantor precisou dormir na rua. “Tive que passar algumas noites na calçada do Theatro Municipal. Depois disso, descobri um restaurante de estudantes, era uma espécie de ‘bandejão’. Aí eles me deram um mês de crédito para comer. Como também tinham um alojamento, eu só precisava me matricular em uma escola. Fiz isso e, então, já tinha lugar para comer e dormir”, conta sobre seu início no Rio.

Foi nesse período que o cantor conheceu o produtor e compositor Rossini Pinto, que lhe ajudou no lançamento de seu primeiro compacto. “Pensei que tudo fosse acontecer muito rápido, mas também não posso reclamar. Em dois anos, eu já era conhecido em praticamente todo país. Em 1972, gravei Eu Vou Tirar Você Deste Lugar e, daí pra frente, o meu disco já era tocado no Brasil inteiro”, recorda.

Muito além da música, Odair acabou se tornando um cronista social. Foi pioneiro a retratar temas como a prostituição, a desvalorização do trabalho doméstico e o uso da pílula que, à época, era estimulada pelo governo para controle de natalidade. “Sempre fui contra a hipocrisia, ao falso moralismo. Nas minhas canções, a todo o momento, retratei e expus o que acreditava ser importante. Falei da empregada, que era ‘usada’ como um objeto pelos patrões. As prostitutas, que precisavam ser vistas com dignidade. E de outras inúmeras coisas que eram escondidas pela sociedade”, salienta.

Já consagrado e reconhecido nacionalmente, o músico relembra de um baque que sofreu ao lançar o disco O Filho de José e Maria. “Esse álbum é, talvez, o meu preferido na minha discografia. Hoje, ele também é um dos discos reconhecidos como mais importantes no Brasil. Nele eu conto a história de um menino, cujos pais se chamam ‘Maria’ e ‘José’, e suas descobertas na vida. Ele retrata experiências, descoberta da sexualidade. E, por isso, a igreja foi contra. Acharam que estava falando de Jesus e, mesmo que fosse, todo o moralismo por traz disso não tinha razão. Acabei sendo censurado e foi muito difícil pra mim”, explica.

Segundo o próprio Odair, seus passos foram pesarosos depois da forma como o disco foi recebido. “Após esse episódio, fiquei uns 20 anos fazendo trabalhos mais comerciais. Foi tudo uma ‘bosta’. Claro que existiram canções boas, mas de maneira geral, eu sofri muito, porque acabei perdendo minha essência e não colocando nas letras o que eu realmente sentia”, ressente-se.

Anos mais tarde, o compositor voltou às raízes e conseguiu retomar seu jeito particular de compor e explorar sua arte. “Ainda na década de 90, consegui retornar a minha essência. Foi uma libertação poder voltar a escrever e falar sobre o que eu acredito. Pra mim, isso é o mais importante,” ressalta.

Agora, Odair lança seu 37º álbum de inéditas, Hibernar na Casa das Moças Ouvindo Rádio. O título reúne os nomes das três primeiras músicas do disco. Hibernar, fala sobre o isolamento num mundo hiperconectado. Na Casa das Moças, mostra a hipocrisia da sociedade quanto à prostituição. E Ouvindo Rádio, onde o músico declara seu amor pelo meio de comunicação que o tornou conhecido. “Esse disco está muito especial. Espero que o público de Belo Horizonte vá ao show – que ocorre sábado, 3 de agosto, n’A Autêntica -, e possa aproveitar esse trabalho que foi feito com tanto carinho”, finaliza.

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